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quarta-feira, 13 de março de 2024

Encantado's e a falência do modelo de TV aberta

 
     
    Estreou ontem na GloboPlay a segunda temporada da série Encantado's, que conta a história do dia a dia de um pequeno mercado no bairro de Encantado, zona norte do Rio de Janeiro. O que diferece esse mercadinho de vários outros na Cidade Maravilhosa e na ficção de modo geral é que após o expediente as prateleiras se arrastam e ali funciona o barracão de uma escola de samba, que luta para alçar voos nas divisões de acesso do Carnaval carioca. 

    Eu não assisti ainda a segunda temporada, mas vi a primeira recentemente, próximo ao feriado do Carnaval e me encantei (peço desculpas pelo trocadilho) com a série como um todo. Os personagens são muito variados e suas histórias cativam demais o telespectador, indo desde as clássicas histórias de amor até a superação dos bloqueios criativos que todo artista eventualmente passa; o enredo da trama é muito leve, podendo ser acompanhado por quase que qualquer público e trás elementos muito populares do dia a dia do brasileiro, como o trabalhar em mercado (quem nunca trabalhou ou não conhece alguém que trabalha) e o participar da grande festa nacional em fevereiro. Por fim, conta com um elenco majoritariamente composto por atores negros, o que, nas demandas da sociedade atual, é uma grande dedada na ferida, só que sem a militância gratuita que a gente tanto vê em obras que tentam incluir a todo custo minorias em seu casting. O típico "papel de negro", que é aquele do personagem que só existe na narrativa para sofrer racismo, não está presente ali. São pessoas pretas que vivem seu dia a dia normalmente e a temática do preconceito pode eventualmente aparecer, mas está longe de ser o tema principal da história. 

    Quando eu terminei de assistir Encantado's a primeira coisa que me veio na cabeça é:

"Essa é uma das séries mais TV aberta que eu já assisti na minha vida."

    E de fato, veja tudo que eu disse acima. Encantado's é um produto que deveria sim estar toda semana na nossa telinha, nos fazendo companhia depois da novela ou em qualquer outro horário que a Globo decidisse. E por que não está?

    Eu pensei, pensei, pensei e cheguei à conclusão de que talvez uma série aos moldes de Toma Lá Dá Cá, A Diarista ou Mister Brau não se encaixa mais no nosso modelo atual de TV, que a cada dia perde mais público e mais anunciantes para os conteudos "on demand", que pode-se ser visto na hora em que se quer  que é o que o streaming oferece. Basta você pensar, pra que fazer 32 episódios anuais de uma série, com dia e horário marcado, se existe a possibilidade de fazer apenas 12 e soltar na internet? E isso sem nenhuma reclamação de público? Pra que contratar um elenco para um ano todo, se esse mesmo elenco pode atuar como freela por dois meses e depois ser recontratado novamente por mais poucos meses? O modelo de TV que tínhamos anos atrás, ao menos aparentemente, se encaminha para seu final ou para uma mudança muito brusca. Eu particularmente acredito na segunda opção, mas independente de qual dessas duas for de fato rolar, pode-se ter certeza de uma coisa: em nenhuma delas o caminho será menos dolorido. 

    E para encerrar você pode argumentar que a Globo já passou essa série em TV aberta. E sim, é verdade. Você inclusive pode ver o trailer abaixo. Mas entenda, por mais que ele tenha passado na TV, ele não foi feito para passar na TV. Ou ao menos não na TV da forma como a gente gostaria que fosse feito.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Tonin, o ninja que veio da roça (e as outras temporadas)


Voltei de "férias"! Depois de um dezembro e janeiro corridos, finalmente estou podendo voltar ao blog. E como não tive tempo antes, minha indicação pras férias reais (não tipo as minhas) de vocês vai acabar ficando como uma dica para os finais de semana. Você que me lê já conhece o anime brasileiro do Tonin? 

Sim, é um desenho em estilo japonês, mas ao mesmo tempo mais brasileiríssima que existe! Publicado entre 2008 e 2012, em quatro temporadas de episódios exibidos aos sábados no Charges.com.br, de Maurício Ricardo (sim, o site daquele cara que é um dos fundadores da internet no Brasil).Conta a história de um caipira da região do Triângulo Mineiro (Berlândia-Berada-Tuiutaba) que vai até o Japão do passado treinar em uma escola de ninjas para resgatar uma vilinha de camponeses da opressão de um mago que usa de seus poderes para extorquir o que pode e não pode daquelas pessoas. E é a sinopse que eu vou dar para não estragar a surpresa de ninguém. Mais abaixo vou deixar algumas um pouco mais completas, mas por é só isso que vocês precisam saber mesmo (acreditem, surpresa é o que não vai faltar nesse desenho).

Pra quem acompanha, ou já acompanhou o site, vai ver que é um trabalho totalmente diferente do que ele oferece no dia a dia. Primeiro por ser uma história fechada, e em temporadas, mas que em contrapartida, ainda carrega muito do trabalho que a gente tá acostumado. Críticas de cotidiano, paródias da sociedade, referências a ocorridos do mundo real (lembrem que ali tem muita coisa que fazia sentido lá em 2008, há dez anos atrás e que hoje talvez não façam tanto, mas isso não torna a obra nem um pouco menos atemporal), além de trocadilhos e gags visuais, exatamente como acontece nas animações diárias. Só que menos ficado nisso. É também, ao menos no meu ponto de vista, o trabalho mais artístico de Maurício, com perspectivas e proporções que a gente não vê ele usando, como personagens de perfil,  por exemplo, que ficam estranhíssimos no traço dele e até onde me lembro, só apareceram aí mesmo.


Mas a novidade que, que nem é tão nova, que tô trazendo, são as quatro temporadas em formato de filme que o próprio foi disponibilizando durante todo o ano passado em seu canal no YouTube (aliás, se você não é inscrito nele, inscreva-se. Não, não estou recebendo nada pra indicar, estou fazendo isso porque ele é bom mesmo). Algumas coisas ali podem até ter ficado estranhas ali, mas entendam que é porque esse não foi o formato original do produto (quem assistiu o filme d'Os Dez Mandamentos sabe do que eu tô falando), em filme ele não ia ficar perfeito mesmo. Na sequência, as quatro temporadas, com um rápido comentário antes de cada uma, pra você, se não conhece, conhecer um dos produtos mais fantásticos - e menos valorizados - da... Da... Animação? Brasileira? Bom, Tonin aí pra vocês: 


A primeira temporada é a apresentação da história. Ninjas chegam ao interior mineiro buscar, lê-se comprar, aquele que é o "Escolhido" para dar fim às tiranias de Vilano San, antagonista de maior destaque na série, em uma vila do Japão Feudal (não dá pra saber a época com exatidão). Enquanto isso, no Brasil, são mostradas as aplicações de Tião, pai de Tonin, com os lucros da venda do menino. 



A vorta dos que num foi acontece no Brasil, às vésperas das Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016 e é continuação direta dos acontecimento de O ninja que veio da roça, a fim de que eu nem sei como falar dela sem dar spoilers. Só vou dizer, para aumentar a expectativa de vocês, que ela apresenta, de fato, um novo vilão, que já havia aparecido de relance na primeira temporada passará a acompanhar o herói rural até o fim de sua saga. Ah, e peço que prestem atenção nos vários exercícios de futurologia de Maurício Ricardo presentes no filme.



Devido aos acontecimentos da última temporada, O ninja dos inferno retorna todos os personagens ao Japão. As questões temporais, que ganharam destaque principalmente no vídeo aqui de cima dão uma pausa para abranger um ambiente mais "místico". É a mais filosófica dentre todas as quatro histórias e é também o fechamento da maioria arcos abertos no primeiro ano da série.



A última temporada de Tonin é a mais alheia a todo o resto da série. Como já visto no final da saga anterior, passaram-se cinco anos, o protagonista é adulto (ao menos nas concepções tradicionais de "adultice") e praticamente todos os problemas que envolviam o universo do desenho já foram resolvidos, a exceção de um ou outro que acabou ficando para trás - e que eu adianto, se são mesmo resolvidos ou não, é questão de interpretação. O tempo também volta a ter seu protagonismo, agora abordando uma linha teórica que eu particularmente não concordo muito quando o assunto é viagem pelo tempo e espaço. Mas eu concordando ou não, de qualquer modo nada disso é real, então apenas aproveitem!



Tonin reaparece em Transando essa transa, primeiro e por enquanto único crossover com todos personagens do Charges, publicada em 2013. Você pode assistir a saga acessando este link. E para assistir a série no seu formato original, em capítulos, clique aqui.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A mão invisível da internet




Ainda mês passado troquei umas palavrinhas aqui com vocês sobre a emergente carreira internacional da Anitta (leia aqui), tentando deixar mais ou menos claro o caminho da cantora, passo pós passo, fazendo "feat." em músicas de astros já mais famosos do que ela, para assim ir, aos poucos, conseguindo seu espaço. E antes de começar a falar qualquer coisa nesta postagem, quero já deixar avisado que passa muito longe da intenção deste texto querer comparar a carreira dessas artistas, porém, no último domingo, é inegável que o Brasil acordou o foi dormir boquiaberto com a notícia de que nossa rainha do rebolado, Gretchen, iria gravar um clipe com ninguém mais ninguém menos que Katy Perry! Não é Maluma (???), não é Iggy Azalea; é Katy Perry, um dos maiores expoentes do universo pop na atualidade. A estrela norte americana argumentou que a escolha por Gretchen aconteceu devido ao imenso número de memes da brasileira que recebia de seus fãs (basta meia hora de Facebook para ter uma noção disso). Sim, por causa de uma brincadeira de internet, não só ressuscitamos a carreira de "Maria Odete", mas também a colocamos vai saber quantas casas acima da Anitta, que até a semana passada figurava como a maior superstar do país, meio que num passe de mágica!
Claro que é muita inocência achar que apenas o meme por si só foi responsável por esse convite, com certeza há o trabalho de um grande agente nos bastidores, mas que em contrapartida, de pouca coisa serviria não fossem os milhares de gifs que neste momento estão circulando nas redes sociais. E é isso que vale a pena ser observado. A internet às vezes tem um poder que não conseguimos mensurar. Garanto que ninguém levava a sério esse assunto de "meme", como já falei lá em cima, tudo era apenas uma brincadeira, que às vezes as pessoas faziam apenas mesmo para ridicularizar essa mulher (Inês Brasil, você não está nem um pouco longe dessa realidade, querida). E eu próprio achava que essas imagens animadas sequer saíam de dentro de nossas fronteiras. E que alguém me diga hoje, em 2017, como isso começou. Acho que é impossível descobrir. Toda a dinâmica que move a internet tem vida própria, e provavelmente não existe mais controle nenhum sobre o que circula apenas por lá, e o que vai acabar saindo para o mundo real. Swich Swich - o nome da música - é o exemplo mais recente desse fenômeno pós-moderno (não sei nem se posso usar esse termo aqui) de junção do concreto com o virtual. E provavelmente logo, coisa de dias ou horas, já será substituído por outro acontecimento tão extasiante quanto esse, e eis esse o lado triste desse negócio. Mas posso dizer? Que privilegiados somos de presenciar isso tudo (não a música, mas as transformações de mundo mesmo). 
O clipe em questão está anexado na abertura desta postagem. E a Katy Perry não aparece nele. Ah, e Gretchen, não pense que estou te menosprezando, ou diminuindo sua carreira aí de mais de trinta anos, totalmente pelo contrário, pra mim, ver o Brasil brilhar no exterior é sempre um motivo de alegria. E se através de uma personagem assim, tão popular, ainda mais. Desejo muito mais sucesso pra você, pra Anitta, e pra qualquer outro/a representante nosso planeta afora. Caso algum dia formos grandes nesse meio - o que eu acho muito difícil -, tenha certeza, vai ser muito devido à essas portas que estão sendo abertas por você(s) hoje.

domingo, 25 de junho de 2017

Os esportes bizarros do Olympic Channel

imagem: Olympic Channel

Como vocês devem se lembrar, ao fim do meu último post fiz uma ligeira menção ao Olympic Channel, plataforma de vídeos do Comitê Olímpico Internacional. E como às vezes a inspiração para os textos me vêm dos lugares mais surreais do mundo - como de outros textos meus -, achei que seria legal destacar aqui o "esporte alternativo" que esse canal oferece. 
Lançado durante a cerimônia de encerramento das Olimpíadas de 2016 (aliás, eu até ganhei um pin do Olympic Channel quando estava no Rio, ano passado), o Olympic Channel não tem a intenção de exibir os Jogos de verão ou de inverno, como muitos podem estar pensando. Apesar de contar com um vasto acervo de edições passadas, inclusive com várias cerimônias de abertura e encerramento, o foco principal do canal consiste em "aquecer" o telespectador entre um megaevento e outro com campeonatos mundiais e continentais dos mais diversos desportos, mas quase todos eles sem apelo da grande mídia. Badminton, Tiro Esportivo, Tiro com Arco, Canoagem, Luta Greco-Romana, Pentatlo Moderno, além  dos novatos Surfe, Escalada Esportiva e até mesmo o Basquete 3x3, integrado apenas este mês ao calendário de Tóquio, foram alguns dos esportes de verão que eu tive a oportunidade de ver (e olha que eu nem entro sempre). Das modalidades geladas já cheguei a assistir Esqui, Curling, Hóquei Sobre o Gelo, Biatlo e bônus para os Jogos Asiáticos de Inverno, realizados em fevereiro no Japão (um torneio multidesportivo que seria equivalente ao nosso Pan, só que com esportes de gelo e neve).
Competições populares, como Futebol, Vôlei, o Basquete convencional, Tênis e etc. eu particularmente nunca vi, e nem acredito que figure ou ainda vá figurar por lá. A mesma regra serve para as Olimpíadas e, fosse o caso, as Paralimpíadas. Esses esportes "muito grandes" facilmente giram cifras bilionárias e interesses enormes dos grandes conglomerados de TV e internet. O próprio COI garante grande - ou até a maior - parte de seu orçamento com a comercialização dos direitos de suas competições para essas empresas mundo afora. Nem preciso dizer que, não só por questões econômicas, mas também pelo princípio básico de não de infringir a "soberania nacional" de muitos grupos poderosos, seria inviável um pré-olímpico de Rúgbi nesse site, né? 
E já que é pra fazer propaganda de graça, vamos fazer completa. Além dos torneios de todos esses esportes que você provavelmente só vai ver lá, o Olympic Channel ainda conta com documentários e séries documentais sobre a História dos Jogos Olímpicos, programas originais envolvendo os atletas medalhistas, ou superstars em suas áreas - quase nunca brasileiros, infelizmente -, além do riquíssimo arquivo das Olimpíadas anteriores, que sempre é atualizado com coisa nova. Não sabe o que quer escolher? A plataforma oferece um canal ao vivo que fica intercalando essas coisas todas de forma ininterrupta, pra você ver a hora que você quiser (em inglês). 
Tenha acesso integral e gratuito ao Olympic Channel através deste link (uma dica: vão lá no canto e ajustem o idioma para o português). Se preferir, procure também pelo aplicativo de mesmo nome na loja virtual de seu celular, até o fechamento desta matéria ele também era grátis. E a partir de agora não quero mais ouvir ninguém falando que não tem por onde acompanhar esses "esportes bizarros", combinado? 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Dica do "Dia Olímpico" - Vinicius e Tom, Divertidos por Natureza



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Hoje, 23 de junho, embora pouca gente saiba, é mundialmente comemorado o Dia Olímpico, para lembrar a data de fundação do Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1894. É um dia que se promove a amizade, a prática de atividade física e os bons hábitos de saúde. Mas como não tenho moral pra orientar ninguém a nada dessas coisas,  vou recomendar um desenho mesmo. 
Vinícius e Tom, Divertidos por Natureza foi uma série de animação de 32 episódios (faz de conta que são 16 pra cada personagem, rs) que contava historinhas curtas, com mais ou menos dois minutos cada, protagonizadas pelos mascotes dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Vinícius, o amarelo, foi o mascote da Olimpíada e dizia-se ser uma junção de toda a fauna brasileira num bicho só. Tom, por sua vez, é a plantinha azul, foi concebido para ser o mascote das Paralimpíadas e também para personificar a flora do Brasil. O primeiro tinha o poder de voar e se esticar, enquanto o segundo tinha um espaço infinito para guardar as coisas nas folhagens da cabeça. Seus nomes, escolhidos em votação popular são, respectivamente, homenagens aos ícones da MPB Vinícius e Moraes e Tom Jobim (os compositores de "Garota de Ipanema", canção símbolo do Rio de Janeiro e do Brasil).
Produzido pela Birdo Stúdio e exibido pela Cartoon Network, o desenho era ambientado na Floresta da Tijuca, onde os dois mascotes supostamente viveriam (mas eles saem da floresta para visitar outros locais também). Lá, eles encontravam se encontravam com outros personagens, esses exclusivos da TV, com destaque para os animais nativos daquele bioma (ou quase) e outras três criaturas, que eu não sei definir muito bem o que são, de nome Bela (verde), Vida (roxa) e Sol (amarela), as "Irmãs Cariocas". Voltado para o público infantil, não possui falas, o que torna o produto universal, ao mesmo tempo que carrega mensagens principalmente de cunho ecológico, grande bandeira da Olimpíada no Brasil. Mas mesmo assim é bem divertido, e de uma qualidade técnica que não deixa a desejar pra desenho famoso nenhum por aí não - me lembro que durante os Jogos, lá na "Casa dos Mascotes Bradesco", televisões ficavam exibindo esse desenho na sala onde se aglutinavam as filas para fotos. O maior elogio dos adultos era justamente para isso, para o quão bem feita era a animação. 
Lembrando que abrindo esta postagem deixei anexada pra vocês toda a série - como já é de costume aqui no blog. Tanto os episódios linkados como o anexado foram disponibilizados no canal oficial da Rio 2016 no YouTube, mas caso você prefira, também pode assistir ao desenho do Vinícius e do Tom através do Olympic Channel, plataforma de vídeos lançada e mantida pelo COI e seus anunciantes (só que lá prece que estão faltando alguns capítulos).

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Globo Play está no caminho certo?




Foi anunciado já há um tempo pela Globo que estreia amanhã Carcereiros, série de teor policial baseada no livro homônimo de Dráuzio Varella (sim, o médico do Fantástico). Mas não, não vão jogar Vade Retro pras duas e meia da manhã, o novo seriado será exibido, com exclusividade, no Globo Play, serviço de streaming da maior rede de TV do país. Apenas para assinantes. 
Faz já tempo que a Globo tenta se firmar nesse mercado de assinaturas de vídeos. Desde a época em que isso ainda nem era mercado por aqui (mentalizem uma linha e a dividam em duas partes. Ponham nela a.N. e d.N., antes e depois da Netflix. Está aí a história do streaming no Brasil), o canal da família Marinho já anunciava em intervalos comerciais que adquirindo um tal provedor "globo.com" você teria teria acesso às integras das novelas e programas no portal de mesmo nome, pagando valores quase que simbólicos, um real e pouco por mês, ou nem isso. Quando  os provedores de rede foram extintos, a Globo até reformulou seu site, lançou a Globo.tv (já falei dela aqui no blog), mas provavelmente nunca emplacou. O serviço sequer fora desvinculado da nomenclatura anterior, que o consumidor ainda associava com o dito provedor (e convenhamos, esse negócio de provedor é algo confuso pra caramba). Porém, quando se consolidou o conceito dos vídeos pagos on demand, a Vênus resolveu investir pesado. Pegou toda a estrutura que já existia, acrescentou TV ao vivo - mas apenas para algumas cidades -, botou um fundo preto e rebatizou de Globo Play. Após disso, foi só gravar propagandas com suas maiores estrelas e vender como algo novo. Deu certo. Não sei se dá lucro, mas hoje a marca é um sucesso
Mas dado certo ou não, o importante a destacar é que o serviço nunca se acomodou. Oferecer apenas aquilo que a televisão já mostrou já não é mais atrativo suficiente para acarrear assinantes. Iniciativa como a de Carcereiros já foi vista em Brasil a Bordo, série de Miguel Falabella, que abre esta reportagem, e que assim como a debutante de amanhã, não tem nem previsão de exibição na TV. O projeto de "maratonar" as séries na internet é resposta à demanda atual de jovens, que perderam a capacidade de esperar por um episódio após o outro, e teve início com SuperMax, quando na época uparam o seriado todo no site, deixando apenas o último capítulo exclusivo para a telinha, dando assim um "hiato" de pelo menos uns dois meses e meio para que a pessoa que viu tudo de uma vez pudesse descobrir o fim da história. Nem preciso dizer que essa foi uma ideia catastrófica, né? Mesmo disponibilizando conteúdo extra para esse público, foi algo que não vingou, e acho muito pouco provável que repitam a experiência (públicos de internet e televisão são diferentes, não adianta querer forçar). Outras estratégias, como disponibilizar um capítulo, "o próximo", no caso, horas (Justiça) ou dias (Vade Retro e Mister Brau) antes da exibição na TV. Algo que te dá uma falsa impressão de "tô tendo prioridade", mas no final é o mesmo modelo televisivo, onde você tem que esperar o tempo X para ver o seu programa. Se diferencia apenas pela mídia. A última coisa que destaco é a chegada de Anos Rebeldes ao canal, como "material complementar" de Os Dias Eram Assim. Já disse lá em cima do conteúdo extra que às vezes é disponibilizado, mas uma série inteira, lá dos anos 90? Pra mim, estão de parabéns. 
Mas no grosso, o serviço está no caminho certo? Eu acho que sim, mas tem muita coisa que a matriz ainda poderia usar para impulsionar o seu produto. Dei no parágrafo anterior vários exemplos de séries, mas temos que lembrar que Globo não é apenas teledramaturgia. A Globo Play, obviamente, também não. Existem vários eventos que poderiam muito bem ser "desmembrados" de outros sites do grupo para criar uma certa centralização no canal de vídeos. A primeira leitura, isso pode parecer meio pesado, mas não é. A divisão virtual da Globo é basicamente o G1, como portal de notícias, o globoesporte.com, responsável pelo esporte, o Gshow, site de entretenimento da rede aberta e o próprio GloboPlay (tem outros, mas esses são os mais importantes). Os acontecimentos esportivos e culturais dos quais a emissora detém direitos on line costumam ser distribuídos entre esses portais. Por que não direcionar então as transmissões ao vivo desses eventos para apenas plataforma então? Com uma transmissão especial, visando o público da internet? Os outros sites ficariam responsáveis pela cobertura dos espetáculos com fotos, notícias, etc. Lembrando que a Globo Play já aplicou este modelo com os Jogos Olímpicos de 2016 (o mais que maravilhoso #PlayNosJogos) e nas duas partidas, de ida e de volta, da semifinal que deu vaga à Juventus na final da Liga dos Campeões deste ano. Só que sempre em simultâneo com o globoesporte. E mesmo que prefira assim, em parceria, seja por questões de anunciantes, razões contratuais, ou quaisquer outros motivos, por que ainda assim não levar para o Play atrações como o Rock in Rio, o Lolapalooza ou o João Rock (G1 e Gshow)? A Copa das Confederações, a Copa América, a Eurocopa e a Champions desde o começo? O Jogo das Estrelas do NBB e as classificatórias da Fórmula 1 (globoesporte.com)? Sozinho ou junto das outras três páginas, focar nisso, de forma gratuita, seria o ideal para estes eventos que não tem espaço na televisão aberta, e que nem por isso, necessariamente, rompem a autonomia com da TV fechada. A internet fala outra língua, abrange outras pessoas, se sabido como trabalhar os dois - ou três - espaços, todos só vão se ajudar (e além do mais, todas são a mesma empresa, não dá pra dizer que existiria "concorrência" entre eles). 
Pode-se dizer que a Globo tem um produto de enorme potencial nas mãos. E conteúdo suficiente pra expandi-lo para onde quiser. Talvez faltem definições absolutas do impacto econômico disso, a curto, médio e longo prazo, até pelo serviço ser algo relativamente novo, mas, assim como já fazia desde a época do provedor, lá no começo do século, o importante é nunca parar de reinventar. E para quem diz que é besteira pagar pelo que passa na TV aberta, quero adiantar que o futuro é esse, por mais infeliz que ele possa parecer. E o essencial para o presente é descobrir o como se vender isso lá na frente. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

NBB Caixa... Na Web!


imagem: LNB


Chegamos ao final de mais uma temporada do Novo Basquete Brasil, popular "NBB" (por questões de naming rights, "NBB Caixa", nomenclatura que vou usar por ser o correto a se fazer). A série melhor de cinco para definir o campeão da temporada entre Paulistano e Bauru começa no próximo sábado, 27 de maio - também conhecido como amanhã. Mas antes do campeonato acabar, gostaria de destacar o pioneirismo da liga na hora de fazer suas transmissões. Quase 40 jogos da temporada tiveram transmissão exclusiva via Facebook, ao vivo, de graça, com o comando do próprio NBB, na página oficial da competição. Modelo, inclusive, responsável por garantir que todas as partidas dos playoffs (a fase de "mata-mata") tivessem exibição por pelo menos um meio de comunicação (SporTV e Band compõe os outros meios de transmissão).
Já falei aqui, como vocês devem se lembrar, do Atletiba na internet (pelo sim pelo não, leia aqui), fato que tratei como uma revolução na emissão do futebol no Brasil. Mas o que pro futebol ainda se engatinha, no basquete é uma realidade consolidada desde 2014. E a prática, que eu conheci ano passado através do YouTube, ganhou ainda mais força com a migração para o Facebook (inaugurou com as as finais da Liga Ouro de 2016). Vou deixar anexada abaixo uma animaçãozinha com alguns números, e vocês vão ver que é inegável o sucesso da iniciativa. 
Criada e por muito tempo mantida pela Globo, a Liga aprendeu muito bem a caminhar com a próprias pernas, não se curvou às megalomanias de exclusividade dos Marinhos e com isso conseguiu fortalecer absurdamente sua marca - além de ainda manter o Grupo Globo como parceiro, o que é sempre uma grande vantagem -, que tem tudo para continuar crescendo nos próximos anos (mesmo com sua federação indo pro buraco, o que pode prejudicar os clubes, mas não a Liga, que é ao contrário do que acontece no futebol, é independente). 
E lembrando que, já que esse foi o assunto daqui, as decisões do NBB Caixa 2016/2017 não terão transmissão via NBB na Web, a última exibição por redes sociais se deu ainda na fase de quartas de final. Os últimos jogos do campeonato só poderão ser vistos pela televisão (e seus respectivos serviços de streaming, em ao menos um dos casos).


domingo, 7 de maio de 2017

AtleTiba na internet



arte: Lucas R. F. Maester
É de se imaginar que em "dias normais" eu jamais viria aqui pra falar do Campeonato Paranaense, né (na verdade, hoje seria pouco provável que eu viesse aqui falar de qualquer estadual)? Mas este contou com um diferencial, uma revolução. Dois times mostraram que talvez (leiam bem, talvez) dê para acabar com a dependência de TV no futebol brasileiro. 



A RPC, afiliada Rede Globo no Paraná, confirmara o acordo para poder transmitir o estadual local, organizado pela Federação Paranaense de Futebol (FPF), como já é o comum de todos os anos. Surpresa nenhuma, não fosse um detalhe: a declinação de Atlético Paranaense e Coritiba, os dois maiores clubes do estado. CAP e Coxa resolveram não assinar com a emissora após esta ter oferecido valores absurdamente baixos pela exibição de seus jogos. A solução encontrada para isso seria algo inédito no futebol brasileiro: o embate entre os dois times (o "atletiba") seria transmitido de forma exclusiva pela internet. Sem intermediação direta de TV, toda a transmissão seria de responsabilidade dos clubes. Os canais no YouTube e as páginas do Facebook das duas equipes mostrariam simultaneamente o clássico do dia 19 de fevereiro de 2017, pela quinta rodada do torneio, direto da Arena da Baixada. 
Chegado o domingo da partida, tudo estava pronto. Público no estádio, repercussão positiva no país todo (a iniciativa deu muito o que falar) e com o  Esporte Interativo mostrando as garrinhas - já de olho em 2019, era hora de fazer história. Mas o jogo não aconteceu. A Federação interferiu a fim de parar o derby com os jogadores já posicionados para o apito do juiz. A alegação era uma suposta falta de credenciamento do pessoal de imprensa, justificativa, que óbvio não colou, e acusações contra a Globo não demoraram a aparecer. Campo e internet tornaram-se uma zona de guerra. Investigações sobre o que "realmente aconteceu" naquele fatídico dia seguem até hoje em tramitação nos órgãos de justiça, então até por isso, não cabe a mim, autor deste blog, dar sentença de culpa ou inocência neste episódio, mas uma coisa é certa, a partida que por si só já seria histórica, terminou de vez nos anais (não se exaltem) do nosso futebol. O jogo foi remarcada para o dia primeiro de março e ocorreu normalmente. Foi visto através das mídias sociais das equipes.
Campeonato após isso seguiu sem incidentes, mas quisera o destino que os mesmos dois times chegassem à final. A solução, logo, não podia ser outra, e as duas partidas decisivas seguiram o mesmo esquema de exibição. Primeira decisão de título de um campeonato profissional de futebol no Brasil sendo mostrada apenas pela internet! É pouco ou quer mais? 



Mas o que eu acho disso tudo? As primeiras partidas tiveram ótimos números de audiência. Tão bons que eu mesmo fiquei surpreso. Mas claro, não precisam me dizer que a transmissão pela TV geraria um alcance muito maior - ainda mais em uma decisão de título -, mas só pelo fato de sabermos que muitas pessoas, em especial as mais velhas, ainda não tem acesso a serviços informática no Brasil (nem para conseguir acessar as mídias, ou até sequer para ficar sabendo da "novidade") e de que a torcida destes dois times ainda é consideravelmente pequena (média, pode ser?) - em comparação às dos "grandes clubes", ver que o clássico ultrapassou com folgas a casa dos milhões, é algo pra lá de gratificante. Mas por ora, infelizmente, não vejo tanto futuro pra esse tipo de prática - apesar de acreditar que o jogo ainda possa virar. O modelo é novidade, dá pra se explorar muitos meios de se fazer dinheiro através dele (leia a matéria que acabei de deixar anexada em verde), e até vale ressaltar, várias inserções comerciais foram notórias nas finais, o que é um ótimo retorno para a empreitada, mas, para o bem ou para o mal, o futebol brasileiro ainda é muito dependente de televisão. E historicamente, muito pouco foi feito para se reverter isso. O próprio Coritiba, para servir de exemplo, teve mais da metade de sua receita advinda apenas da Globo em 2016 (o Atlético está na casa dos 34%, mas com uma crescente absurda de 2015 pro ano passado. A pesquisa está linkada no texto). Sinal de que nosso futebol está valorizado na telinha? Sem dúvidas. Depois dos incidentes das últimas negociações de exibição (dissolução do Clube dos 13 em 2011 e a chegada da Turner, através do Esporte Interativo, para 2019), o campeonato super que encareceu - ou simplesmente inflacionou mesmo -, porém, dá pra analisar por outros lado também: não haveria uma enorme falta de vontade da maioria dos clubes para lucrar a partir de outras fontes? Basta se lembrar de que sócio torcedor, projeto que hoje dá certíssimo para algumas equipes, é algo novo, mas e antes disso, o que acontecia? Esperava-se lucro de bilheteria ou um boom de venda de camisas? É até difícil de conseguir uma resposta.
A iniciativa de se livrar das amarras, injustas sim, diga-se de passagem, do grupo que detém o monopólio do futebol no Brasil é muito legal. Mais do que isso, é um direito dos times, mas eles que não se esqueçam de que se uma extremidade da corda começou a ficar mais pesada, é porque faltou reforço na outra. Tempos e mídias mudaram, é hora de se reinventar, isso é fato, mas muito cuidado, que um "lado da corda" está em larga desvantagem, e sabemos muito bem qual é. 



As partidas de Atlético-PR e Coritiba pelo Campeonato Paranaense de 2017 transmitidas exclusivamente na web estão distribuídas no corpo deste texto, pela ordem de realização.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

E essa maluquice de Terra Plana?




Que a internet é o ambiente ideal para o surgimento e a proliferação de todo tipo de loucura e histeria, não é novidade pra ninguém, mas agora, querer convencer alguém que a Terra é plana? 
Não, não é um tema aleatório, é uma questão que começou a ganhar certa popularidade nas redes sociais de uns tempos pra cá, conseguindo até adeptos ilustres, como o cantor de rap B.o.B. (quem é esse cara?), o ex-jogador de basquete Shaquille o'Neal e o ET Bilu. Para resumir a teoria, é o seguinte: nosso planeta é como que um prato, seu centro é o que seria o nosso polo norte e a Antártida teria a função de ser o "muro" da terra, uma camada intransponível de gelo circulando toda a borda da Terra. Após essa barreira, está um domo indestrutível e gigante que nos cobre de fora a fora. Abaixo do domo, além da Terra, também está o Sol e a Lua, muito menores do que imaginamos, fazendo espirais sobre nossas cabeças. Só dia no Brasil e noite no Japão porque esse Sol não tem luz suficiente pra iluminar todo o disco de uma vez só, esqueça essa história de movimento de rotação. Já falamos abaixo, agora acima do domo (pra mim essa é a melhor parte) tem mar. Sim, mar, oceano, em cima da gente. Além disso tudo que eu expliquei, está o Divino. Mas e o motivo de não nos falarem a verdade? Uma conspiração global envolvendo a NASA, a ONU e diversos órgãos mundiais que usam da mentira da Terra esférica na finalidade de nos preencher com um enorme "vaziez" de espírito, fomentando lucros com antidepressivos e planos de saúde, além de conseguir angariar dinheiro e mais dinheiro com o financiamento de campanhas espaciais falsas, dentre outros maléficos objetivos sociais e econômicos. Na internet existem vários vídeos, blogs e sites que detalham melhor esse assunto, mas vou deixar um vídeo, meio longo, mas muito bom, que fala sobre o assunto. Do canal Assombrado, muito famosos no YouTube, pra vocês poderem começar. Acesse por este link (mas não fique só nele).
O post com um episódio de Família Dinossauro - ao invés de abrir com o vídeo que acabei de indicar - porque não tive como não lembrar dele. "O mundo redondo de Charlene" foi o primeiro contato muitos de nós tivemos com essa "discussão". Nele, a filha dos Silva Sauro propõe em um trabalho de escola que  a Terra na verdade seria "redonda como uma laranja" ao invés de "chata como uma panqueca", consentimento do período. Por essa afirmação, é presa e responde a um julgamento, cujo desfecho vou deixar que você descubra assistindo ao episódio. Claro que o intuito do programa foi usar de uma situação absurda para poder questionar algum problema social ainda quente lá nos fins de Guerra Fria nos Estados Unidos (a estreia da série data de idos de 1991; para base de comparação, a União Soviética só viria a cair no fim daquele ano), mas é interessante observar que muitas questões representadas no capítulo em questão são exatamente iguais às de hoje. Quando comecei a ver coisa ou outra sobre esse assunto, achei que fosse uma ideia "cienticista", ela parecia se basear em conceitos de observação e teste - ainda que a modo deles -, mas a ilusão não sobreviveu a cinco minutos de pesquisa. Dizer que a Terra é reta nada mais é do que apoiar um movimento religioso. Por mais apresentem "argumentos" para embasar sua teoria, a justificativa sempre termina nas primeiras linhas do Gênesis bíblico. Não desmereço os Textos Sagrados, mas acho que já passou da hora de aceitar que muitas partes deles nada mais são que meras alegorias, representações, frutos de um tempo que hoje já foi superado. Era impossível cobrar os conhecimentos astronômicos e geológicos atuais lá em 700 e tanto antes de Cristo, pra "Moisés" sobrava apenas que opção? Se inspirar no óbvio, que é o que ele podia a olho nu enxergar. A dinossaura (essa palavra existe?), no show, é condenada por ato de heresia, junto com todos que a apoiam. Não dá pra não dizer que foi vítima de acusação doutrinária (embora Família Dinossauro não toque muito no tema da religião. A "igreja" deles aparenta muito ser o Estado). Lembrando (eu acho) que ser adepto de uma religião e acreditar na descrição da Criação não vai te fazer necessariamente um terraplanista - como os adeptos se denominam. Terraplanistas usam de "ciência" para explicar suas teses. Mas começam nela e não terminam nela. A série ainda trata da ação das grandes corporações mantenedoras do preceito vigente - e por que não também das influencias diretas destas no sistema de Justiça?. Hoje seria o contrário, a conspiração é a favor de uma Terra esférica. Mas não deixa de ser uma conspiração bancada pelas elites, o que mérito principal da questão. E como gostamos de conspirações.
Representação da Terra Plana
imagem: FLATearth no Pinterest
Lembremos que esse movimento [o da Terra plana] não é novo, as primeiros organizações modernos a defender essa tese são ainda anteriores à Família Dinossauro (e talvez sejam ainda mais antigos do que imaginamos), surgidas provavelmente como grupos inexpressivos, meio que meia dúzia de malucos se reunindo nas casas uns dos outros para escrever livros e panfletos sobre o tema, mas que com o advento da internet acharam um campo fértil para se propagar. Talvez entender a "euforia terraplanista" seja muito mais do que apenas tratar de debates astrofísicos, é tentar entender o porquê de uma ideia totalmente sem nexo ter o poder de angariar tantos seguidores num universo onde você, ao menos supostamente, teria acesso a todo tipo de conhecimento e cultura. Aceitemos nós ou não, esse universo acabou ficando cheio de gente sem rumo. É notório que as pessoas hoje sentem, mais do que nunca, a necessidade de terem "causas", motivos para se engajar, precisam de algo a mais. Os amiguinhos no Facebook e no Twitter estão militando, ninguém mais pode ser "alheio" (mas pode sim, jovens, entendam isso, por favor), então no fim, tudo acaba terminando em como dizem: se tá na internet, é porque verdade, né. 
E se for pra continuar analisando esse episódio de Família Dinossauro, por que não consideramos também que Dino e companhia já estavam discutindo a tal "escola sem partido" lá no começo dos anos 90? Mas bom, esse assunto a gente deixa pra tratar numa próxima oportunidade...

sábado, 4 de julho de 2015

"R7 Play" e a questão da gratuidade da Internet


Conseguiram assistir o vídeo acima? Não (se sim, cala a boca, assiste a novela e deixa o outro coleguinha responder)? Tem um porquê disso:








Logo, deu-se a entender oque o primeiro vídeo se trata de um vídeo, mesmo sendo do YouTube, pago. E a menos que você pague pelo serviço on demand que administra esses vídeos, no caso o tal do R7 Play, você não pode ter acesso ao que, pelo menos em teoria, deveria ser de graça (vou  chegar nessa questão). É uma ação comercial muito parecida com a realizada pela Globo já desde muito tempo atrás, de disponibilizar a íntegra de seus programas apenas para assinantes do seu provedor de internet. O serviço foi evoluindo com o passar dos anos, a ideia de provedor foi ficando ultrapassada, e hoje a TV Globo disponibiliza suas produções para assinantes que paguem apenas pelas íntegras,  a chamada globo.tv+, que inclusive,  até o fim da redação dessa postagem, apresentava dois planos diferentes de assinatura, um para todo tipo de programa, e outro apenas para novelas, mais barato. A grande "novidade" da Record talvez seja misturar a idéia da Globo com a prática do SBT de disponibilizar todos os seus programas via YouTube, criando inclusive canais próprios para grande parte dos programas, na tentativa de facilitar nossa vida, internautas (e ainda tem os exatos mesmos vídeos, em outro formato, no seu site oficial). Além do mais, ainda tem que YouTube é YouTube, é universal, todo mundo usa, com certeza é bem mais prático e vendável do que seria se usassem aquele player horroroso do R7, que nem pra controlar resolução dá (exemplo dele está aí em cima). Logo, pode-se dizer que a Record está fazendo o que a Globo faz, na plataforma que o SBT usa, só que restringindo público e repartindo lucros (uma ideia genial, não me estranha de onde venha).
Mas uma coisa é de se elogiar, o momento que escolheram para lançar o R7 Play: durante o "boom" de Os Dez Mandamentos, sob o ódio de telespectadores que não tinham como (re)ver a novela pela internet (o máximo possível era ver os "melhores momentos" de cada capítulo, selecionados de uma forma muito estranha. Exemplo disso aqui), e às vésperas dos Jogos Pan-Americanos de Toronto. Não havia outro momento para fazê-lo senão esse! Prefiro não entrar na questão do conteúdo oferecido, sobre até onde vale ou não a pena pagar, porquê acho que isso vai ser questão do gosto pessoal de cada um, então me abstenho. 
E lembrando que citei apenas as maiores emissoras para comparações, existem outras que também disponibilizam seus conteúdos na íntegra pelo YouTube ou outros sites gerais de vídeos, outras que usam plataformas próprias, outras que só disponibilizam excertos, isso vai de cada uma, mas no caso desta postagem, preferi focar meus exemplos nas mídias que com certeza todos conhecem, até porque seria impossível citar todos os exemplos do Brasil aqui.

Mas a grande questão não é essa. Acho que uma empresa não só pode como deve ter a autonomia de escolher a maneira de divulgar e disponibilizar seu produto, mas fico meio com um pé atrás quando o assunto é uma rede de televisão aberta, como é o caso da Record, ou até mesmo da Globo, que faz a mesma coisa. TVs fechadas que querem fazer isso, como HBO, FOX, GloboSat, etc.,que já o fazem, estão mais do que certas em cobrar, mas no caso de veículos que deveriam ser abertos para o público? Nem entrando na questão de "concessão pública" dessas mídias, porque sabemos que isso, na prática, não significa nada, a concessão é pública, mas as empresas são privadas, é um negócio que eu próprio admito não entender muito, tampouco saberia explicar. Acho que deveria existir alguma lei para o caso desse tipo de mídia deixar seu conteúdo com acesso livre ao público em geral, gerando não só o entretenimento ou a informação que seriam próprios dos programas, mas também abrindo mais oportunidades até de pesquisa para com tais conteúdos, tendo em vista que televisão pode servir como uma fonte histórica, sociológica, filosófica e artística riquíssima de ser estudada, mas muitas vezes seu acesso se torna muito dificultado por parte de seus "proprietários". 
Agora imaginem, o que em tese deveria ser público, sendo "público" uma definição muito contestável, passa a partir diretamente para o privado, sem contestação nenhuma desse segundo termo. Com certeza isso é algo que vem de fora, mas e se criar um "Netflix próprio" se tornar moda entre todas essas mídias? Tudo bem que ainda temos excertos gratuitos por parte desses veículos, mas atentem-se bem à esse "ainda" que utilizei na frase. Eu mesmo nem sabia que o YouTube tinha vídeos pagos. E que basicamente qualquer um pode ter um canal pago! Hoje ainda ninguém sabe dessas coisas, mas talvez daqui 10 anos ninguém mais se lembre de que já existiram vídeos que eram de graça! Em um mundo onde tudo é tão facilmente monetizado, espero que isso seja só mais uma paranoia ou reflexão/ideia maluca minha, mas infelizmente, dessa vez acho que não é.